Qua

20

Abr

2011

Brasil não foi descoberto em 1500

O Brasil foi achado ou descoberto em 1500?

Discussão lingüística atiça divergências históricas

oi, afinal, um "achamento" ou um "descobrimento"? Em sua carta ao rei dom Manuel, redigida para narrar a chegada da frota de Cabral a uma nova terra, o escrivão Pero Vaz de Caminha usou a expressão "achamento". Quatro séculos mais tarde, quando se iniciou o incendiário debate para estabelecer se a descoberta do Brasil fora casual ou intencional, o termo utilizado por Caminha serviu de munição para os defensores da tese de que o país fora "achado" por acaso.

Apesar de essa discussão estar longe do fim (embora todos os indícios permitam supor que os portugueses não só já sabiam da existência do Brasil como, talvez, tenham mesmo estado aqui antes da arribada de Cabral), o fato é que o uso da palavra "achamento" por Caminha não pode servir de prova para a teoria da casualidade.


O descobridor
O Brasil talvez tenha sido "achado" antes de 1500, mas seu "descobrimento" foi obra de Cabral



O verbo "achar" era utilizado, no século 14, para definir a chegada dos lusos às misteriosas ilhas que eles encontraram (ou reencontraram) em meio ao Mar Tenebroso (o Atlântico). Tais ilhas já haviam sido avistadas por navegadores da Antiguidade e por exploradores italianos do século 13. Assim, o termo "achamento" referia-se ao fato de que os lusos estavam "reencontrando o que fora perdido", como explicou o historiador Jaime Cortesão. Com efeito, os Açores e as Canárias - bem como outras porções insulares de origem lendária, que coalhavam o Mar Tenebroso de então - eram então chamados de "ilhas perdidas".

Em fins do século 14, tais ilhas já tinham sido novamente "achadas". Naquela época, o verbo "descobrir" - com significado correlato a "achar" - era eventualmente utilizado. Mas o substantivo "descobrimento" nem sequer existia. Quando, em meio à sua expansão marítima, os portugueses começaram a encontrar novas terras - entre as quais, o próprio Brasil -, precisaram inventar uma palavra para definir seus grandes feitos náuticos.

"Descobrir" passou a ter, então, o significado de "revelar o que estava oculto", "destapar", "desvendar o que se mantinha escondido". Surgiu assim o substantivo-síntese "descobrimento": quase um neologismo, uma genial invenção semântica, fruto do fulgor da língua lusitana (que atingiria seu ápice décadas mais tarde, com a publicação de Os Lusíadas, de Camões).

Na aurora do século 16, a expressão "achamento" caiu em desuso e raríssimos são os documentos que se utilizavam dela. Um dos textos nos quais o termo reapareceu foi justamente a Carta de Caminha. Mas, mais do que sugerir que os portugueses estavam chegando ao Brasil por acaso, o que talvez Pero Vaz tenha querido dizer naquele momento era que Cabral pudesse ter "achado" mais uma das "ilhas perdidas" do Atlântico.

 

Eduardo Bueno





A ilha do Brasil

Como já foi dito noutra ocasião nesta coluna, os portugueses ainda acreditavam, em pleno século 16, na existência de uma lendária ilha do Brasil, de natureza "movediça" e "ressonante de sinos sobre o velho mar". Era uma das tantas que povoavam a lenda e a cartografia antigas. A ilha do Brasil teria sido descoberta por um místico irlandês, São Brandão, por volta do ano de 565 da era cristã. Era conhecida como a "Terra da Bem-Aventurança". Pero Vaz de Caminha pode muito bem ter suposto que, no entardecer de 22 de abril de 1500, Cabral estava aportando justamente nela. E, no fundo, talvez não estivesse muito errado.



A palavra-chave

O termo "descobrimento" parece ter sido inventado em 1499, por dois escrivães e influentes assessores do rei dom Manuel: Antônio Carneiro ocupava o cargo de chanceler-geral e o desembargador Rui de Pina fora o principal negociador português do Tratado de Tordesilhas. Foi em agosto de 1499, em documento que ambos redigiram para narrar o feito de Vasco da Gama (que, um ano antes, tinha "achado e descoberto a Índia") que a palavra "descobrimento" fez a primeira aparição no léxico. Assim, o Brasil talvez tenha sido "achado" antes de abril de 1500. Seu "descobrimento", porém, com certeza foi obra de Cabral.

 

Fonte:http://epoca.globo.com/especiais/500anos/990628.htm

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